A busca por significado e o paradoxo jogador x desenvolvedor

journey game

 
Encontrar o significado, sentido da vida, tem sido uma das principais questões desde que nossa espécie desenvolveu uma mente capaz de ter consciência não só do mundo ao seu redor, mas também de si.

Como defende António Damásio, neurocientista dedicado ao estudo do cérebro e das emoções humanas, a “mente” nos seres teria passado por um processo evolutivo contínuo. A partir de um estado primitivo, sem consciência de si, mas apenas de necessidades fisiológicas e de sobrevivência, evoluiu nos seres humanos para o que chamou de “self-autobiográfico”. Esse estágio só foi possível pelo desenvolvimento da consciência de si e da memória, possibilitando a construção de narrativas individuais.

Com isso, deixamos de buscar apenas a preservação da nossa segurança e sobrevivência, mas também objetivos mais complexos como pertencimento a um grupo social, estima e realização pessoal, como defenderia Maslow. E mais ainda, um significado. O desenvolvimento dessa consciência trouxe perguntas atormentadoras como “por que estamos aqui?” ou “qual o meu papel nesse caos?”.

 

life is strange butterfly

 

Infelizmente não chegamos a esse mundo com um manual de como as coisas funcionam e qual nosso objetivo, então torna-se necessária a criação individual de um objetivo, um significado próprio, nos deixando em uma posição incômoda de, ao mesmo tempo, ser escritor e leitor de uma obra.

 

Paradoxo jogador X desenvolvedor

Transpondo esse paradoxo para o mundo dos games, temos um conflito entre o jogador e o desenvolvedor, duas categorias que se encontrariam em posições totalmente opostas no espectro de um jogo.

Dificilmente faz sentido para o desenvolvedor de um jogo se engajar na experiência imersiva completa de jogá-lo. Afinal, quando se conhece todas as regras,  relações de causa e efeito e eventos futuros de um jogo, perde-se a graça de experienciá-lo.

Da mesma forma, em um jogo do tradicional RPG de mesa, temos o papel do mestre, que cria e aventura e dirige o destino dos outros jogadores. Por controlar os eventos, não faz sentido que ele jogue entre os demais. O RPG é uma experiência completamente diferente para ele, sua diversão está em criar o significado daquela aventura.

 

rpg stranger things

 

Voltando à vida real, chegamos a esse mesmo impasse. Temos a dificuldade de criar, de forma original, um objetivo e regras para nossa vida, vivendo uma busca por significado de acordo com esses preceitos. O ser humano tradicionalmente prefere recorrer à narrativa da ideologia vigente, sustentada pelas instituições (escola, igreja, família etc.).

Talvez essa seja uma característica que desenvolvemos por apresentar alguma vantagem evolutiva, mas o fato é que somos muito melhores em seguir regras pré-estabelecidas do que criar as nossas próprias.

Até que chega uma má notícia: deus está morto.

 

“Deus está morto” e o Eterno-Retorno de Nietzsche

As palavras de Nietzsche, muitas vezes má-interpretadas, apenas nos dizem que Deus estaria morto como o conceito de verdade eterna, como uma entidade que governa o mundo e justifica os acontecimentos. No contexto da época em que a igreja perdia cada vez mais sua força e a influência da religião nas vidas era cada vez menor, a “verdade eterna” não mais existiria, o que nos bota em uma posição bastante desconfortável, onde precisamos encarar o caos do mundo e dar a ele significado.

Ou seja, para não sucumbir à passividade do niilismo em acreditar que nada tem sentido, precisamos tomar as rédeas de nossa própria vida. Como diz Deleuze, em anti-édipo: “o importante não é a notícia de que deus está morto, mas o tempo que ela leva a dar seus frutos”.

No entanto, para algumas pessoas, a liberdade de tomar as rédeas de sua própria vida é encarada como um fardo, e não como oportunidade. A vida sem um script pré-definido pode ser encarada como intolerável pela falta de significado, ao invés de uma folha em branco para expressar toda sua força criativa.

one-chance

 

A resposta de Nietzsche para combater a verdade do “deus ausente” é a do Eterno-Retorno.

“E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem…

… você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: ‘Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!’.”

Nesta proposta, em que todos os acontecimentos de nossa vida se repetiriam exatamente como ocorreram da primeira vez, em um ciclo infinito, o ponto de Nietzsche é que isso pode ser percebido de forma negativa ou positiva, dependendo da forma como encaramos nossa vida. Ou seja, do quão protagonistas somos em criar nosso próprio significado no dia a dia que vivemos.

 

Viver a vida como o seu jogo favorito

Qual seu jogo favorito? Aquele que você já domina as regras, já testou diversas possibilidades, e ainda assim nunca enjoa de jogar?

Acredito que seja algo assim que devemos buscar para nossa vida. No contexto do Eterno-Retorno, qual vida você construiria para viver repetidamente pela eternidade, que fosse divertida, estimulante e desafiadora, como um bom jogo?

No entanto, ainda assim continuamos com o problema do jogador X desenvolvedor: a questão de que geralmente preferimos buscar objetivos e regras pré-estabelecidas por outros do que criar as nossas próprias. Afinal, seria desestimulante tentar “vencer” em algo que você mesmo criou as regras. Seria como roubar no jogo, certo?

Mas quem disse que você deveria querer vencer?

 

Existem dois tipos de jogos: finitos e infinitos

Os jogos finitos são o tipo comum, que possuem regras fixas e terminam com a vitória de um dos lados. Os jogos infinitos, por sua vez, não possuem regras tão bem delimitadas e o propósito não é vencer e terminar o jogo, mas continuar jogando. Exemplos claros são o pingue-pongue em oposição ao frescobol, e o futebol em relação à altinha.

 

futebol altinha praia

 

Em geral, jogos infinitos são menos sérios e buscam no ato de jogar a diversão em si, um verdadeiro estado de flow. Esses jogadores gostam de ser surpreendidos, sendo obrigados a se adaptar para responder aos novos contextos e “jogar bonito”. O jogar portanto é um prazer por si só, indissociado da conceito de vitória ou derrota. James P. Carse explora mais esse conceito em seu livro “Jogos finitos e jogos infinitos: a vida como jogo e possibilidade“.

Se levarmos a vida como um jogo finito, ficamos presos a busca de recompensas extrínsecas e a um conceito nebuloso de “vencer na vida”, para nos sentirmos realizados. Ao buscarmos viver em um jogo infinito nos divertimos no caminho e a simples adaptação e reação aos desafios e novos cenários apresentados já são capazes de gerar poesia e significado.

 

Post muito longo, não li nada:

Com o desenvolvimento evolutivo da mente, nos deparamos com uma das principais questões humanas: a busca por significado. Sofremos com a falta de um manual de instruções.

Precisamos ser os game designers e os jogadores de nossas próprias vidas, o que é muito difícil. Se você mesmo cria as regras e a programação de um jogo, não seria estimulante jogar. Por isso buscamos tanto regras pré-estabelecidas e ideologias compartilhadas por instituições e grupos.

A resposta de Nietzsche para a ausência de significado é o Eterno-Retorno. Devemos escolher a vida que queremos viver, como se essa escolha impactasse a nossa eternidade.

Qual o jogo que você jogaria infinita e eternamente? Se associarmos a este jogo um propósito, pode ser todo o significado que precisamos.
 

About Marcos Malagris 9 Articles
Publicitário, professor de inteligência de mídias sociais e estudante de psicologia. Quando não está questionando verdades sobre a vida, o universo e tudo mais, joga videogame e toca ukulele.

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