Um guia de como viajar no tempo para otimizar a vida

o paradoxo do tempo

 
Cada vez mais ouvimos falar em mindfulness, ou atenção plena, uma mentalidade orientada a viver o presente e aproveitar o momento. Afinal, focar nas experiências presentes tem o potencial de reduzir o estresse, ansiedade e depressão, algumas das doenças comuns e devastadoras do mundo moderno.

No entanto, algumas pessoas parecem ter maior facilidade em viver no momento presente do que outras, o que provavelmente está diretamente ligado a como cada um vive a experiência do tempo.

 

Gandalf Time

 

Este ano li um livro sobre esse tema, que mudou a minha forma de ver a vida e me ajudou a entender o comportamento de outras pessoas. O Paradoxo do Tempo, de Philip Zimbardo e John Boyd, propõe uma divisão das pessoas de acordo com sua percepção de tempo.

Algumas vivem orientadas ao passado, outras ao futuro e as restantes ao presente. As implicações de cada uma dessas orientações são fascinantes e repletas de pontos positivos e negativos.

 

A importância do tempo

O tempo é o combustível. Mesmo que traga o fim para todas as coisas, é o que nos permite viver experiências e dar significado à vida.

Somos seres curiosos que valorizam muito mais o que é escasso e tem data de validade. Ironicamente, é essa mesma percepção de “finitude” que nos provoca ansiedade e estresse, podendo fazer com que valorizemos menos a experiência presente.

Apesar da nossa relação com o tempo ser tão importante quanto a do peixe com a água em que ele nada, da mesma forma que ele ignora sua relação com a água, ignoramos nossa relação com o tempo.

Water - David Foster WallaceThis is water – David Foster Wallace

 

Ainda que que a maioria das pessoas tenha um foco principal em como experimentam a percepção do tempo (passado, presente ou futuro), explorar essas diferentes dimensões pode maximizar a satisfação com a vida e outros benefícios como produtividade e realização de objetivos a longo prazo. É preciso tornar-se um viajante do tempo e alternar a perspectiva de acordo com a situação.

Mas atenção! A armadilha é se guiar demais pela sua orientação natural em relação ao tempo, deixando de explorar o benefício das outras abordagens.

Como veremos a seguir, cada uma das orientações tem pontos positivos e negativos, e a maioria das pessoas tem um foco maior em uma delas. Caso tenha interesse, você pode realizar o teste do Inventário de Perspectiva Temporal, e descobrir como sua orientação aos diferentes tempos se comparam com os resultados da maioria da população.

 

Pessoas orientadas ao Passado

Dizem que o excesso de passado em nossas vidas pode ser um sinônimo de depressão, mas não necessariamente.

Pessoas orientadas ao passado tendem a se perder no presente lembrando de tempos anteriores e situações pelas quais passaram. Avaliam as experiências presentes em comparação as referências vividas anteriormente, gostam de dizer “no meu tempo…”, e muitas vezes acham que nada será tão bom como um dia foi.

fita - no meu tempo

Dividem-se em passado-positivo (foco em experiências que deixaram boas lembranças) e passado-negativo (gastam mais tempo remoendo situações ruins ou constrangedoras do passado). Em geral, são orientadas à família e outros grupos sociais, além de valorizar rituais cotidianos.

Dentre as vantagens de ser orientado ao passado, é possível destacar o forte senso de identidade e gratidão. Dentre as desvantagens: posturas vingativas, repulsão ao novo e a mudanças no status quo, e possível comportamento preconceituoso.

Quando alterar o foco para o passado?

Basicamente para experimentar o sentimento de gratidão, focando a maior parte de sua atenção no passado-positivo. Zimbardo sugere “reescrever” as partes negativas do passado, através de uma reinterpretação das experiências negativas, buscando entender seu significado e aprendizados que elas podem ter deixado. Para o autor, essa habilidade em analisar o passado de forma positiva seria um indicador de saúde psicológica e emocional.

É importante lembrar que o modo como nos sentimento no presente irá influenciar as lembranças do passado que teremos no futuro. (deu nó aí?)

recordar é viver duas vezes

 

Pessoas orientadas ao Presente

Nossa vida começa orientada ao presente.

A partir do nascimento começamos a lutar pela nossa sobrevivência, totalmente orientados às sensações de dor e prazer que podem nos dar dicas sobre como devemos nos comportar. As crianças mantém essa orientação por alguns anos, mas em algum momento, talvez quando começam a intensificar seus estudos e outras atividades cujos impactos serão sentidos apenas no futuro, mudam de orientação e passam a prestar menos atenção no momento em que estão vivendo.


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No entanto, algumas pessoas mantém-se orientadas ao presente, o que possui efeitos positivos e negativos. Segundo Zimbardo, o lado bom supera o ruim, e as pessoas hedonistas tendem a viver uma vida mais intensa. Pessoas orientadas ao presente costumam encher sua vida com novidades, hobbies e esportes, além de serem naturalmente boas em fazer amizades e novos relacionamentos.

São pessoas divertidas e agradáveis de se ter por perto, e assim como crianças estão sempre prontas para se conectar com intensidade total ao que estão fazendo. Ainda que estejam com uma lista repleta de afazeres, não deixam de curtir o momento. Na verdade, são pessoas que nem costumam fazer listas.

E quando fazem, esquecem de checá-las.

Mas nem tudo são flores na vida de uma pessoa orientada ao presente. Dentre os pontos negativos, é possível destacar comportamentos impulsivos e baixo autocontrole. São pessoas que tendem a ser menos estáveis emocionalmente, têm dificuldade de economizar e costumam se atrasar com frequência.

Quando alterar o foco para o presente?

Diversas correntes filosóficas e psicológicas estimulam a busca por viver o momento presente, como o budismo e a atenção plena. Viver o presente permite que você aproveite mais a vida e buscar algumas práticas de mindfulness, como a meditação, traz inúmeros benefícios, podendo ajudar no combater a depressão, ansiedade e estresse.

É importante alterar o foco para o presente quando estamos com nossos amigos e família, nos tornando pessoas mais agradáveis e vivendo de forma plena os momentos que serão guardados com carinho no nosso passado.

Afinal, a melhor forma de gerar boas lembranças é vivendo intensamente o presente.

 

Pessoas orientadas ao Futuro

Enquanto hedonistas vivem em seus corpos, pessoas orientadas ao futuro vivem em suas mentes.

Apesar de estarem presentes fisicamente, em suas cabeças estão imaginando cenários, coisas que devem fazer, recompensas e sucessos/fracassos futuros.

São pessoas bastante responsáveis, que desenvolvem planos para atingir seus objetivos e se mantêm fiéis a eles. Em geral, os “futuristas” têm uma postura positiva em relação ao trabalho, se esforçando para terminar suas responsabilidades antes dos momentos de lazer. O trabalho no presente seria a garantia antecipada de recompensas no futuro.

Ao prezar por controle, consistência e previsibilidade, a perspectiva futurista geralmente tem facilidade para economizar dinheiro e tirar boas notas. No entanto, ao contrário das pessoas orientadas ao presente, podem encontrar dificuldades em relações íntimas, já que esses fatores podem interferir na liberdade e espontaneidade dos relacionamentos.

Também podem experimentar algumas outras desvantagens, quase sempre ligadas a “pensar demais”.

A mente de uma pessoa orientada ao futuro pode ser extremamente ansiosa, constantemente analisando o hall de possíveis consequências para suas ações. Podem ter grande dificuldade em se divertir, ao considerar algumas atividades perda de tempo.

dificuldade de viver o presenteLarry é um dinossauro orientado ao futuro

O “experimento do labirinto” evidencia perfeitamente a diferença entre a perspectiva “presente” e a “futura”. Ao serem confrontados com um labirinto e as instruções de resolver o desafio o mais rápido possível, os orientados ao presente começaram imediatamente do início, movendo seu lápis pelo papel. Já os orientados ao futuro não moveram o lápis de início, mas procuraram o final do labirinto e planejaram o caminho antes de começar. Os orientados ao futuro resolveram o desafio em menos tempo.

Quando alterar o foco para o futuro?

Sempre que você estiver lidando com metas a médio/longo prazo ou precisar de motivação para executar uma tarefa que não vai trazer benefícios instantâneos. O planejamento e organização para se atingir um objetivo é algo que ocorre muito naturalmente para pessoas orientadas ao futuro e, apesar de parecer o caminho mais óbvio, não é tão simples para as pessoas cuja principal orientação é o presente.

A dica é focar na meta final e ensaiar mentalmente o atingimento dela, entendendo quais foram os passos necessários para chegar lá. O planejamento pode ser feito de forma retroativa, sempre imaginando cada passo anterior a chegada ao objetivo. Uma vez com a lista de etapas necessárias, o foco passa a ser quais ações você precisa para atingir cada uma delas. E focando em uma de cada vez, voilà!, você volta para o presente.

 

Otimizando decisões, otimizando a vida

Tomamos centenas de decisões em um dia típico, desde o que vestir ao que fazer no nosso tempo livre. Apesar de parecem inofensivas, quando acumuladas definem quem fomos, quem somos e a pessoa que viremos a ser.

Não costumamos aplicar muita reflexão às decisões rotineiras, seria um processo muito desgastante. Ao invés disso, nos baseamos em nossas heurísticas mentais, algumas regras gerais que funcionam como um atalho para a tomada de decisão.

Ou seja, Você já tem preferências bem definidas sobre o que gosta de vestir, comer ou fazer, além do que te gera aversão. E faz a grande maioria de suas escolhas baseadas na relação emocional que tem com objeto. Quando positiva, tende a aproximação. Quando negativa, ao afastamento. Simples assim.

Quando uma decisão foge das heurísticas pessoais pré-estabelecidas ou apresenta um confronto de duas opções igualmente positivas/negativas, ficamos sem norte e precisamos aplicar um esforço maior no processo. Em todas as outras vezes, a nossa orientação temporal predominante pode exercer grande influência sobre a escolha, o que torna essencial o auto-conhecimento.

Por exemplo, ao serem confrontadas com decisões importantes, pessoas orientadas ao passado tendem a decidir levando em conta o resultado de experiências passadas, possíveis traumas e tradições de grupos sociais aos quais pertencem.

Uma pessoa orientada ao presente, considera o prazer e gratificação instantâneos recebidos com a opções escolhida.

Já os orientados ao futuro, avaliando as opções de acordo com os resultados mais prováveis e como cada um deles se relaciona com seus objetivos ao longo prazo, esgotando ao máximo os cenários possíveis e probabilidades.

 

past present future

 

Quando conseguimos reconhecer nossa orientação dominante, podemos sair do automático em algumas decisões e evitar armadilhas que impomos a nós mesmos. Não é fácil, mas só de se estar consciente desse viés, já é possível minimizar os estragos.

Portanto, a dica geral para a vida é escolher a perspectiva temporal mais apropriada para cada momento, alternando entre três perspectivas e usando-as a seu favor.

Dependendo das demandas da situação, uma orientação específica poderá ser mais valiosa que outra. Quando se tem trabalho para terminar, a orientação ao futuro deve ser utilizada. Quando o trabalho está terminado, é hora de voltar ao presente e deixar de lado as demandas que ficaram para o dia seguinte. E quando se está com a família e amigos de longa data, a orientação ao passado ajuda a valorizar os momentos e construir memórias positivas.

Uma pessoa bem resolvida temporalmente seria a que consegue viajar entre as diferentes perspectivas costurando-as com o presente. A ideia é conseguir viver de forma plena o momento atual, com significado, orientando-se ao que se deseja construir para o futuro, ao mesmo tempo que cria lembranças positivas e um sentimento de gratidão.

 

Post muito longo, não li nada:

Nossa relação com o tempo é de extrema importância e pode influenciar nosso humor e nossa satisfação geral com a vida. No entanto, praticamente ignoramos sua existência.

Cada pessoa tem uma orientação temporal predominante (passado, presente ou futuro), que traz pontos positivos e negativos. O autoconhecimento é o caminho para explorar ao máximo as vantagens e minimizar as desvantagens.

Viver o presente de forma plena impacta diretamente as outras perspectivas, ainda assim é possível explorar os benefícios das diferentes orientações temporais alternando entre elas em momentos oportunos.
 

About Marcos Malagris 9 Articles

Publicitário, professor de inteligência de mídias sociais e estudante de psicologia. Quando não está questionando verdades sobre a vida, o universo e tudo mais, joga videogame e toca ukulele.

2 Comments on Um guia de como viajar no tempo para otimizar a vida

  1. Olá!

    Usar as perspectivas temporais ao nosso favor é realmente dificil, pois as orientações que possuímos tendem a fortemente influenciar as nossas decisões de forma quase incontrolável. Acredito que o primeiro passo é o autoconhecimento.

    Parabéns pelo o texto e pelas dicas! =)

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