Por que você deveria começar aquele projeto pessoal que vem adiando

start line

 

Há algum tempo venho acumulando coragem para começar esse blog, que funcionaria como um território seguro para praticar minha escrita e desenvolver questões que me ajudem a ver o mundo sob outra ótica.

Mas começar algo novo é difícil, principalmente para pessoas perfeccionistas. Rola a paralisia frente a folha em branco, a preguiça de começar algo que pode acabar tendo que ser abandonado depois, o medo de se expor, de falhar etc. Não é fácil sair do zero e tomar o primeiro passo para tirar algo do mundo das ideias e botar no mundo real.

No entanto, ter um projeto pessoal pode trazer uma série de benefícios. Além do prazer de se cultivar algo criado e mantido por você, ao expor seu projeto ao mundo você se desarma e fica aberto a feedbacks e opiniões de outras pessoas, o que é sempre interessante.

A ideia aqui é mostrar alguns destes benefícios e tentar dar dicas de como se sentir seguro para começar.

 

Projetos pessoais são como jardins

Todo mundo precisa de um jardim. Algo para cuidar e ver crescendo como consequência do seu esforço e dedicação. Em um jardim, o objetivo final é menos importante do que o processo. Você até tem a pretensão de que ele cresça, se desenvolva e dê frutos, mas o objetivo real é o processo.

Sr. Miyagi (Karatê Kid)
O hábito da jardinagem é comprovadamente positivo para a saúde e longevidade, atuando principalmente na redução do estresse, ansiedade e depressão. Os benefícios são colhidos (trocadilhos à parte) durante o processo e não somente frente a um resultado final.

Nossos projetos pessoais funcionam da mesma forma. Ao dedicar tempo a eles, sentimos que estão crescendo, evoluindo. Mas o benefício real é o momento de imersão e concentração em uma única tarefa, da mesma forma que funciona na meditação. Quando a tarefa por si só é agradável e satisfazedora, entramos em um estado de flow.

O Flow é a experiência ótima (“optimal experience”, termo cunhado por Mihaly Csikszentmihalyi). É o momento em que estamos tão imersos em uma tarefa que perdemos a noção do tempo. Exemplos clássicos são a prática de esportes, video games e o trabalho (sim, às vezes o trabalho consegue ser tão prazeroso e imersivo que nos faz esquecer de necessidade básicas como comer ou ir no banheiro). No flow, o objetivo é a tarefa em si e não o produto final, ou seja, você faz porque você gosta de fazer.

 

Isso é flow

Isso é Flow

 

Em um projeto pessoal, o sucesso não deve ser perseguido a qualquer custo. Ele deve ser a consequência desse conjunto de momentos de imersão total na tarefa.

“Não procurem o sucesso. Quanto mais o procurarem e o transformarem num alvo, mais vocês vão errar. Porque o sucesso, como a felicidade, não pode ser perseguido; ele deve acontecer, e só tem lugar como efeito colateral de uma dedicação pessoal a uma causa maior que a pessoa, ou como subproduto da rendição pessoal a outro ser. Quero que vocês escutem o que sua consciência diz que devem fazer e coloquem-no em prática da melhor maneira possível. A   felicidade deve   acontecer naturalmente, e o mesmo ocorre com o sucesso; vocês precisam deixá-lo acontecer não se preocupando com ele. E então verão que a longo prazo – estou dizendo a longo prazo! – o sucesso vai persegui-los, precisamente porque esqueceram dele.”

– Viktor E. Frankl em Men Search for Meaning

 

O medo da folha em branco

Enquanto é só uma ideia, seu projeto está em um ambiente seguro. Lá, tudo é perfeito e livre de críticas. Mas da mesma forma que navios não foram feitos para ficar nos portos, ideias não devem ficar apenas na sua cabeça.

A ship in a harbor is safe, but that's not what ships are built for.
Quanto mais perfeccionista você é, maior a dificuldade em tirar uma ideia do papel. E se você é como eu, esse dilema é bastante comum: por um lado, a empolgação de começar um projeto do zero. Por outro, aquela tensão em saber que você vai suar, sofrer e se perguntar “meu Deus, por que eu resolvi fazer isso?” até conseguir deixar as coisas exatamente como você quer.

E tem mais: você não quer ser aquele tipo de pessoa que começa as coisas e depois abandona. O mundo está cheio dessas pessoas. O verdadeiro desafio não é começar um projeto, mas conseguir mantê-lo de forma consistente.

Além do medo das críticas externas, as críticas próprias quanto à sua capacidade de executar e manter de forma consistente ajudam o projeto a nunca sair do papel. Somos nossos piores críticos.

 

Não conte seus planos e só comece quando se sentir seguro consigo mesmo

As próximas dicas são para pessoas ansiosas e que pensam demais antes de agir, o que talvez não seja o seu caso. Mas para os que são como eu, aqui vai a primeira: não conte pra ninguém o que você planeja fazer.

Quando você conta seus objetivos para alguém, você torna eles menos prováveis de acontecer. Na prática, o que acontece é que ao contar seu objetivo para uma pessoa, ela provavelmente vai te parabenizar e você vai ficar feliz. O que acontece aí é que seu cérebro recebe a gratificação mesmo antes de executar a ideia e atingir o objetivo que você declarou. E em uma situação normal, a gratificação só deveria vir depois da execução, como um “prêmio” por ter botado a mão na massa e aquela ideia na rua. Você fica, portanto, menos inclinado a de fato executar a ideia.

E agora a dica que mais me ajudou a colocar esse site no ar. Eu evitei o caminho normal de criar um conceito para o site, pensar em um nome, escolher layout, botar no ar e escrever o primeiro texto. Para me certificar de que eu não desistiria do projeto e descobrir se a minha vontade era só fogo de palha ou não, resolvi testar se eu realmente teria a capacidade de manter o site.

Meu primeiro passo então foi tentar escrever o que eu considerei um número razoável de posts. Assim teria material para manter o site atualizado de forma consistente durante um bom tempo, me blindando contra a possibilidade de abandonar o projeto e me sentir mal por ter falhado.

Bom, e seu eu não conseguisse escrever um número razoável de posts antes de botar o site no ar? Então provavelmente eu não deveria de fato começar esse projeto.

Sei que essa dica parece ir contra a máxima “fuck it, let’s do it!”, mas pelo contrário. É exatamente sobre botar mais coisas na rua, sobre minimizar a chance de projetos abandonados por aí.

O mundo precisa de mais coisas fodas, mas também precisa de consistência.

 

Post muito longo, não li nada:

Cultive projetos. Assim como os jardins, eles irão lhe trazer realização. Não pelos resultados, mas pelo processo em si.

As ideias só conseguem se manter perfeitas enquanto estão no papel, e você deve lutar contra o seu medo de tirá-las de lá.

Guarde seus planos para você e crie uma defesa para se certificar de que não vai abandonar um projeto depois de colocá-lo em prática.

 

Inspiração bônus:

About Marcos Malagris 9 Articles

Publicitário, professor de inteligência de mídias sociais e estudante de psicologia. Quando não está questionando verdades sobre a vida, o universo e tudo mais, joga videogame e toca ukulele.

15 Comments on Por que você deveria começar aquele projeto pessoal que vem adiando

  1. Uau Marcos, adorei a postagem! Vi que é estudante de psicologia, e senti um pouco disso no seu texto. Achei-o real, pois leva em conta nossos medos. É fácil se inspirar e se manter motivado por um dia, mas para manter anos de trabalho é mais difícil. Bem vindo ao mundo dos blogs, já favoritei o seu. Abraços e sorte aqui amigo!

  2. Parabéns Marcos, gostei muito do texto e tem tudo haver com o momento que estou vivendo. Estou criando coragem para começar algo novo. Valeu!!

  3. Que texto bacana, a forma como foi escrito (que parece uma conversa) me fez sentir bem confortável, e chegou em um momento muito importante para mim. Obrigada pelas dicas. Vou repassar.

  4. E ah tenho uma dúvida, eu estou dentro do grupo dessas pessoas ansiosas que pensam demais antes de agir. Achei uma dica incrível não contar os objetivos, e já passei situações exatamente assim, maaaaas as grandes idéias muitas vezes não devem ser compartilhadas exatamente porque uma dessas pessoas as quais você compartilhou pode ter exatamente a ferramente ou complementar a idéia para que ela saia do papel ?

    • Faz sentido! Se você estiver precisando de ajuda pra tornar a ideia viável, pode valer a pena compartilhar. Mas não precisar abrir aos sete ventos, pode procurar alguém confiável e que sempre colabora construtivamente. Vale a pena trocar uma ideia principalmente na fase inicial, enquanto o seu projeto é só um conceito…aí depois, mãos à obra! =)

Leave a Reply

Seu e-mail não será publicado.


*